A terceira coluna da auto-definição do Pentecostalismo e da Renovação Carismática (ReC) é a doutrina dos dons espirituais ou carismas. A lógica desta corrente diz que, no decorrer do derramamento do Espírito nos tempos finais, Deus renovou estes carismas depois que ficaram ausentes durante muitos séculos, da mesma forma que se manifestaram nos doze apóstolos de Cristo. Consequentemente, o dom de falar em línguas es tranhas, o dom da cura divina, as visões proféticas, os sonhos e mensagens “diretas” fariam parte normal de uma vida cristã. Neste capítulo examinaremos este assunto com relação à doutrina bíblica.

 

1) A Pretenção dos Pentecostais e da ReC de possuírem os Dons Apostólicos

Praticamente todas as correntes pentecostais e carismáticas se baseiam na convicção de que Deus restaure nos tempos finais todos os ministérios apostólicos e dons espirituais da Igreja Primitiva no decorrer do “grande derramamento do Espírito”, eles acreditam que hoje ou em um futuro próximo, novos apóstolos e profetas com uma unção especial se levantarão, ou com a mesma autoridade que os apóstolos originais, ou com poderes ainda maiores.

Eles acreditam firmemente que todos os verdadeiros cristãos deveriam ter profecias, visões, sonhos, dons milagrosos, e dom de falar línguas estranhas. Por meio do “batismo do Espírito” o crente seria revestido do poder divino, igual aos apóstolos no dia de Pentecostes.

Pelo dom de profecia e pelos poderes de realizar milagres, a Igreja estaria preparada para enfrentar e vencer as batalhas finais dos Últimos Dias. Estes dons ou carismas do tempo dos primeiros apóstolos são tão importantes que a “irmã mais nova” do Pentecostalismo, a Renovação Carismática (ReC), colocou o termo no seu nome.

O Dom Carismático de Profecia

O movimento pentecostal e carismático afirma ser um movimento profético, onde o carisma da profecia esteja agindo (comp. I Cor. 12;10). Deus teria levantado novos profetas nestes tempos finais com a intenção de dar uma nova orientação ao seu povo e de conduzir os cristãos ao maior despertamento jamais visto na história mundial.

Mas a chegada desta “chuva seródia” do Espírito Santo dependeria da fidelidade com que os avisos e ordens dos novos “profetas” e “apóstolos” seriam obedecidos. Estes, por sua parte, reivindicam ter a mesma inspiração que os apóstolos de Cristo no começo.

Levando esta afirmação a sério, os representantes deste movimento estão dizendo, em Português claro, que ao lado da Bíblia Sagrada (cuja autoridade divina eles confessam) exista uma segunda fonte de revelação divina, que são as palavras destes “profetas” e “apóstolos”, uma vez que Deus falaria diretamente por meio deles.

Esta heresia, geralmente, não é pronunciada desta forma aberta, mas veladamente aparece por toda parte. Observamos que na verdade os “profetas” reivindicam ter recebido a visão, sonho ou mensagem diretamente de Deus. Os pregadores destacados deste movimento costumam afirmar que: “Tudo que eu lhes digo vem diretamente do trono de Deus”.

A maioria dos adeptos do Pentecostalismo e da ReC confiam nas suas próprias visões e nas dos “profetas” como sendo de origem divina. Baseado nestas revelações “divinas”, ano após ano milhares de fiéis tomam decisões importantes como troca de emprego, casamento com a pessoa “divinamente indicada”, doações de recursos financeiros e viagens missionárias ao exterior. E a justificativa é sempre esta: “O Senhor me mostrou…” “O Senhor me falou…”.

O fenômeno mais impressionante do “dom de profecia” é a chamada “palavra de conhecimento”, onde o portador deste “dom” recebe conhecimento de detalhes da vida de pessoas que ele nunca antes tinha visto. Muitos “profetas” causam fascinação e entusiasmo entre os “crentes” por meio dessas revelações da vida particular de qualquer um. Para os adeptos é a prova da origem divina deste dom. Para um observador neutro é um indicativo de clarividência ocultista.

Além da aceitação de um dom especial de profecia para a Igreja dos tempos finais, existe a convicção de que, junto com o batismo espiritual, o “agraciado” tenha recebido a capacidade de experimentar a direção direta de Deus por meio de visões, “impressões”, sonhos e vozes audíveis (sempre se apoiando em Joel 3;1 e Atos 2;17).

A tudo isso se junta o “ouvir dentro de sí” de palavras bíblicas que aparecem “de repente” no íntimo do coração. Este é tido como o meio mais confiável. Realmente é fascinante pensar que Deus nos dê orientações pessoais na hora que queremos, sem ter que consultar a Bíblia, o que levaria muito esforço e tempo.

Na prática, essas “palavras diretas” ou “palavras de revelação divina” tem uma autoridade bem maior do que os conhecidos “velhos” textos bíblicos. Este fato se torna evidente nos casos em que tais “palavras de revelação divina” contradizem frontalmente a Palavra inspirada da Bíblia Sagrada, e mesmo assim são obedecidas. É o caso, por exemplo, da “consagração” de mulheres como “apóstolas”, “pastoras” e líderes nas igrejas carismáticas em geral. Enquanto que em I Tim. 2;12 temos a palavra inspirada que proíbe tais práticas.

Um grande número de “profecias”, muitas delas amplamente divulgadas em meios de comunicação, posteriormente se mostram mentirosas, porque simplesmente não se cumpriram, mostrando que a reivindicação de sua origem divina dos seus autores foi falsa. Este fato representa uma dificuldade invencível, uma vez que se repete sem parar em nossos dias. A explicação destes movimentos é que Deus tenha permitido na sua soberania, que os “profetas” passem mensagens enganosas e verdadeiras misturadas.

Nos dias de hoje, estas “profecias carismáticas” penetram inclusive em igrejas tradicionalmente bíblicas. Muitas delas se abriram ou pelo menos começam a simpatizar com a ideia, de que Deus fale hoje por meio de novos profetas. Inocentemente se começa a buscar “impressões” (a forma branda de visões), e tentar “ouvir” vozes ou ver imagens de olhos fechados dentro de sí. O abandono da Bíblia Sagrada começou e continua em etapas, pouco a pouco, até o afastamento completo.

O Dom Carismático de Sinais Milagrosos

No tempo dos apóstolos, a mensagem divina deles foi confirmada pelos sinais milagrosos, realizados por eles (confira Hebr. 2;3-4). No tempo atual dos dias finais, os movimentos do Pentecostalismo e da ReC reivindicam ter recebido o verdadeiro dom de sinais milagrosos, legitimando desta forma seus “apóstolos” e “profetas” e convencendo incrédulos a aceitarem a Cristo (era, por exemplo, a receita do falecido John Wimber, o tal power evangelism, ou seja, evangelismo por meio de sinais milagrosos).

Para a maioria dos crentes pentecostais e carismáticos, os sinais milagrosos fazem parte da confirmação divina de uma vida cristã abençoada. Os textos bíblicos que servem de justificativa são Marcos 16;17-18 e Mateus 10;7-8, onde se entende encontrar a ordem para todos os crentes de impor as mãos curando enfermidades, de expulsar demônios, de falar em línguas desconhecidas e até de ressucitar mortos.

Para os crentes carismáticos a vida cristã sem a presença destes sinais, parece muito insossa e vazia, aparentando faltar autoridade divina. Sinais milagrosos, pelo contrário, seriam prova definitiva da autoridade apostólica, dada por Deus. Na visão deles, crentes biblicamente saudáveis, cuja vida não é recheada de uma corrente interminável de experiências milagrosas, não passam de portadores de uma fé pobre de segunda ou terceira classe e que difícilmente se salvarão.

Entre os milagres mais “populares” constam as “curas divinas”, fartamente relatadas em pregações e pu- blicações deste movimento. A lista abrange todo tipo de doença física, desde dores nas costas, na barriga, de cabeça, até paralisias e pés ou mãos deformados ou câncer. Lendo ou ouvindo o relato da conversão de crentes carismáticos, geralmente uma “cura divina” tem um papel decisivo.
Os falsos profetas e apóstolos do movimento testemunham uma porção de outros tipos de milagres, tais como encontro com anjos, o passar por portas fechadas, ou ser transferido sobrenaturalmente de um lugar para outro, igual ao que aconteceu com Filipe em Atos 8;39-40.

A experiência de sinais milagrosos representa para os crentes carismáticos a prova irrefutável da presença e da autoridade de Deus e sublinha a credibilidade dos novos “profetas”, “apóstolos”, “bispos” e “pastores milagreiros”. Por este motivo, relatos de sinais milagrosos fazem parte da autoapresentação dos líderes destes movimentos. E mesmo defraudadores conhecidos há muito tempo, como por ex. Todd Bentley, continuam com uma multidão de adeptos, simplesmente porque realizam aparentemente “grandes sinais milagrosos”.

Examinando os sinais milagrosos carismáticos cuidadosamente e comparando-os com os que Cristo realizou, logo descobriremos diferenças marcantes que classificam os sinais atuais dos crentes carismáticos como fraudulentos (detalhes seguem mais adiante).

Apesar disso, neste meio tempo, muitos líderes evangélicos, tradicionalmente bíblicos, passaram a crer na ideia de um novo tempo, em que Deus queira se manifestar outra vez por meio de grandes sinais milagrosos, e pouco a pouco, começam a respeitar os famosos “milagreiros” carismáticos e pentecostais. Atualmente existem muitos líderes de denominações bíblicas que estão experimentando com a expulsão de demônios e curas divinas.

A própria ideia, de que Deus se manifestaria por meio de sinais sobrenaturais e feitos apostólicos, encontrou aceitação ou pelo menos não é mais rejeitada deliberadamente, em vários grupos tradicionalmente bíblicos. Assim sendo, o fermento do movimento de falsos sinais milagrosos penetrará inevitavelmente em muitos outros grupos de tradição bíblica.

2) A Doutrina dos Dons Espirituais (Carismas) nas Cartas Apostólicas

Examinaremos a seguintes questões: Tem fundamento a reivindicação do Pentecostalismo e da ReC de possuirem os verdadeiros dons apostólicos e proféticos? Estas doutrinas tem apoio nas Cartas Apostólicas? Os dons apostólicos carismáticos resistem ao exame bíblico?

A Palavra inspirada de Deus tem que ser usada como padrão absoluto nesta pesquisa. Já no começo do presente trabalho constatamos o fato que a sã doutrina para a Igreja se encontra nas cartas dos apóstolos. O mesmo vale para os dons ou carismas na Igreja apostólica.

a) Os Dons de Deus para a Igreja Apostólica

Os pronunciamentos mais importantes com respeito aos dons ou carismas se encontram em I Coríntios 12-14; outros textos fundamentais estão em Rom. 12;3-8, e em I Pedro 4;10-11. Confiram a palavra “carisma” tam- bém em Rom. 1;11, 5;15-16, 6;23 e 11;29, em I Cor. 1;7, 7;7, em II Cor. 1;11, em I Tim. 4;14, em II Tim. 1;6.

O espaço limitado somente nos permite fazer uma abordagem resumida. Em todo caso é da maior importância usar uma tradução bíblica fiel, ou seja, próximo ao texto original e que se baseia no Textus Receptus. No Brasil se recomenda a versão Almeida Corrigida e Revisada. Outras traduções mais populares contêm distorções graves, escondendo o sentido verdadeiro de certos versículos básicos.

O que é um Carisma?

A palavra neotestamentária carisma provem da palavra caris = graça, e significa um dom, dado pela graça de Deus, ou um presente da graça divina. Dons ou carismas, conforme a doutrina bíblica são capacitações sobrenaturais que Deus dá aos seus filhos, para que possam serví-Lo conforme a vontade divina.

Carismas são operados pelo Espírito Santo e não devem ser confundidos com os talentos naturais que cada um tem. É possível alguém ser um talentoso palestrante no mundo, mas não ter o carisma da pregação ou do ensino na igreja. Ao contrário é possível, alguém não saber falar perante uma platéia no mundo, mas receber o dom da pregação na igreja.

Todos os carismas servem de alguma forma para a edificação da Igreja e para a glorificação de Deus. Quem os usa com outras finalidades, comete abuso (veja I Pedro 4;10-11, I Cor. 12;7, 14;12). Todos os verdadeiros carismas são operados pelo Espírito de Deus (I Cor. 12;4-11). Mas já havia, mesmo no tempo dos apóstolos, falsos dons ou carismas imitados por Satanás. Na igreja de Corinto surgiram falsos apóstolos com o carisma enganoso do ensino (veja II Cor. 11;1-6 e vs. 13-15); havia também o falso dom de profecias como mostram I Cor. 12;2-3 e II Tess. 2;2.

Dons diversos para um mesmo Corpo

As duas listas dos diversos carismas da Igreja Apostólica se encontram em I Cor. 12;4-30 e em Rom. 12;3-8, cada uma com um foco diferente. Enquanto em I Cor. 12 são enfatizados os dons de profecia e de sinais milagrosos, Rom. 12 menciona os dons para a edificação da Igreja. Os dois textos afirmam categoricamente que é o próprio Deus que distribui estes dons conforme a sua soberana vontade. Mas um só mesmo Espírito opera todas estas coisas, repartindo particularmente a cada um como quer.”  (I Cor. 12.11, comp. também Rom. 12;6 e I Cor. 12;18).

Em I Cor. 12;13 aprendemos que a pessoa nascida do Espírito Santo recebe os dons que Deus escolheu para ela junto com o novo nascimento (confira na Versão Almeida Revista e Atualizada: Pois em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo . . .” (tradução literal). Na mesma hora em que a pessoa convertida é batizada (lit. submergida) no Corpo de Cristo por meio do Espírito Santo, ela é revestida dos dons necessários para desempenhar o papel de “dedo da mão” ou de “ouvido” etc., diferentemente dos ensinamentos pentecostais e carismáticos, que exigem uma “segunda experiência” e depois ainda apresentam dons enganosos.

Outra verdade bíblica que aparece junto com este texto é que não devemos buscar os dons “espetaculares” que mais chamam a atenção, mas sim, pôr em prática fielmente aqueles que Deus nos deu, por mais humildes que possam parecer. Ninguém pode escolher o lugar no Corpo de Cristo onde gostaria de desempenhar seu papel de servo.

O apóstolo Paulo exorta os coríntios a não invejarem ou desejarem o dom de falar em línguas estrangeiras, uma vez que já tinham recebido um dom escolhido por Deus, seja de serviço ou algum outro menos chamativo. O que devemos buscar mesmo de todo coração são os dons ou carismas mais preciosos, ou seja, a fé, a esperança e o amor (veja I Cor. 12;31 mais 13;1 e 13;13).

Em I Cor. 13 o apóstolo enfatiza que os dons mais maravilhosos não servem para nada, sendo usados para a auto-projeção dos seus portadores. Este foi o caso na maioria dos crentes em Corinto. Paulo mostra aos Coríntios, que o carisma mais importante é o amor (ágape) e nisto estes crentes apresentaram a maior carência. Eles praticaram tudo o que o amor ágape jamais faria, anulando desta forma a bênção dos dons maravilhosos (I Cor. 13;1-7).

Em seguida o apóstolo continua seu endoutrinamento, mostrando que os dons de revelação como a profecia e a palavra de conhecimento, além dos carismas dos sinais milagrosos e de línguas estrangeiras (dom supervalorizado em Corinto) não eram carismas permanentes da Igreja. O plano de Deus previa estes dons para os tempos iniciais da Igreja até que sejam completadas todas as escrituras neotestamentárias e a doutrina apostólica seja definitivamente registrada nelas.

Por este motivo, os dons mais preciosos, a fé, a esperança e o amor ágape eram muito mais dignos de serem buscados e desejados do que os dons milagrosos passageiros.

O Uso legítimo dos Carismas

Em I Cor. 14, Paulo trata do uso legítimo e espiritual dos carismas, tanto quanto Pedro o trata em I Pedro
4;10-11. O princípio mais básico está registrado em I Pedro 4;10: “Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus.”

Paulo apresenta a prática realizada na vida da igreja. I Cor. 14;1-25 trata do abuso do dom de línguas estrangeiras pelos coríntios egoístas. Eles estavam empenhados em se exibir com seus carismas, ultrapassando uns aos outros. Esta atitude carnal os levava a falar muio em línguas estrangeiras, várias pessoas fazendo-o ao mesmo tempo, criando um cenário caótico. Os outros crentes presentes no culto não entendiam nada por falta de tradução.

O apóstolo os corrige dizendo que, desta maneira só estavam visando edificação própria, que é uma atitude reprovável por ser carnal e egoísta. Nos cultos da igreja toda a congregação deve ser edificada. E esta meta pode ser alcançada somente por meio de palavras inteligíveis (I Cor. 14;1-11).

Logo, Paulo passa a explicar que também não faz sentido fazer oração em línguas estrangeiras. Uma vez que o próprio orador não entendia as palavras que ele falava, seu raciocínio ficou vazio e sem aproveitar nada (uma situação negativa e até perigosa) e nem os outros crentes tinham proveito algum, assim sendo impedidos de dizer o Amém (I Cor. 14;10-17).

O apóstolo menciona a sua própria atitude, afirmando que ele jamais falaria em línguas estrangeiras no culto, preferindo ensinar por meio de palavras inteligíveis, mesmo que sejam poucas, mas que serviriam para a edificação da congregação toda. Em seguida, Paulo explica o objetivo do carisma de falar em línguas estrangeiras (I Cor. 14;21-22) e depois determina as pautas (válidas até hoje) para que o culto seja edificante e corra de maneira organizada (I Cor. 14;23-40).

b) Os diversos Tipos de Carismas

A Bíblia nos mostra em I Cor. 12;4 que existem vários tipos de carismas. Agora queremos examinar os variados carismas em Rom. 12 e I Cor. 12 e dividi-los em três grupos de fácil identificação.

1) Dons de Revelação

Desde o começo, Deus transmitia Sua Santa Palavra por meio de revelação. Este termo-chave (em grego = apocalypsis = ato de desvendar) descreve um recado de Deus sobre verdades espirituais que, por natureza, estão ocultos ao ser humano, por causa do seu raciocínio obscurecido (comp. I Cor. 2;6-15). Por meio do carisma da profecia e do dom da palavra de conhecimento (ou ciência) (I Cor. 12;8), Deus dava novas revelações às igrejas recém formadas, que ainda não desfrutaram das escrituras neotestamentárias completas, nem da presença constante dos apóstolos, mas precisavam de orientação contínua.

Para provar e examinar as revelações, eles tinham o dom do discernimento de espíritos que é uma capacidade sobrenatural de provar e perceber, se uma revelação dada era realmente de origem divina ou se era enganosa, vindo da fonte das trevas (I Cor. 12;10, 12;3 e II Tess. 2;2).

2)  Dons de Sinais Milagrosos

Complementando os dons de revelação, Deus deu os dons de sinais milagrosos para legitimar a mensagem do Novo Testamento (confira Hebr. 2;3-4). Entre estes mencionamos o carisma da cura divina (I Cor. 12;9, Marcos 16;18, Atos 19;11-12). É a capacidade sobrenatural de curar todo tipo de doenças. Depois temos o carisma da fé extraordinária (Atos 12;9), que não deve ser confundida com a fé no sacrifício de Cristo que nos salva da perdição, mas a fé especial que remove montanhas (I Cor. 13;2 e Mat. 21;21).

Outro é o carisma de realizar milagres (I Cor. 12;10), por ex. a cegueira colocada no feitiçeiro Elimas pelo apóstolo Paulo em Atos 13;8-11. O carisma de falar em línguas também faz parte deste grupo. Na Bíblia, este dom é explicado como a capacidade de falar línguas estrangeiras que o portador deste dom nunca estudou. Mas a prática deste dom precisa da complementação do carisma da interpretação (tradução) (veja I Cor. 12;10, Mrc. 16;17). Mais adiante vamos examinar a fundo este dom de línguas.

Finalmente o carisma de expulsar demônios completa a lista de dons de sinais milagrosos. O significado é libertar pessoas possuídas, exercendo autoridade divina em nome de Jesus Cristo (Mat. 10;5-8, Mrc. 16;17, Atos 19;11-12). Dedicaremos mais espaço ao assunto na próxima parte deste trabalho.

3)  Dons de Serviço

Os carismas deste grupo não são chamativos nem sensacionalistas, mas, em compensação estão presentes em todas as igrejas bíblicas desde o tempo dos apóstolos até hoje. Chamam-se dons de serviço e servem para edificar os crentes conforme Rom. 12;6-8. Esses dons não são o foco do presente trabalho.

c) O Cessar de determinados Carismas

A doutrina dos apóstolos mostra de um lado, quais os carismas que Deus deu à Igreja Primitiva Apostólica, mas do outro lado explica, que determinados dons foram dados por tempo limitado como ajuda na “idade da infância” da Igreja, até ela passar para a “maioridade espiritual” conforme o apóstolo descreve em I Cor. 13;11 figuradamente. Uma vez entrando nesta “maioridade” com a chegada do “que é perfeito”, ou seja, da maturidade espiritual, os dons de revelação (a profecia e a palavra de conhecimento ou ciência) cessariam (I Cor. 13;8-9).

A doutrina da duração temporária de certos carismas, limitadas ao tempo dos apóstolos e da cessação destes dons no tempo pós-apostólico (chamada na teologia de cessacionismo) é confirmada amplamente por escritores cristãos dos séculos II a IV.

Só mais tarde surgiram convicções diferentes e hoje existem pregadores sérios de conduta bíblica fiel que defendem a continuação de todos os carismas até o arrebatamento da Igreja. Apesar disso, esta convicção não resiste ao texto em I Cor. 13;8-13, como veremos.

A Doutrina de I Coríntios 13 sobre o Cessar de certos Dons

O texto especialmente esclarecedor no vs 8: “O amor jamais acaba; mas havendo profecias, serão aniqui- ladas; havendo línguas, cessarão; havendo ciência, desaparecerá.” é categoricamente ignorado pelos grupos carismáticos e pentecostais. Eles partem da ideia de que, “o que é perfeito”  (vs. 10) se refira ao aperfeiçoamento da Igreja na hora do arrebatamento e da entrada na Glória Celestial.

Se fosse de fato assim, toda a argumentação do apóstolo cairia no vazio. Porque na hora do arrebatamento não somente os dons mencionados cessarão, mas todos os outros juntos também. Já que a Igreja entrará em uma situação totalmente nova e diferente. Por outro lado, quem insistir nesta interpretação, está dizendo que a Igreja estava desde o começo até hoje na idade da infância e ainda não chegou, nem nunca chegará à maturidade espiritual antes do arrebatamento (vs. 11).

Porém o contra-argumento mais convincente está no vs. 13: Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, estes três, mas o maior destes é o amor.” Aqui está escrito expressamente que a fé, a esperança e o amor ainda continuam, enquanto que a profecia, o dom de línguas estrangeiras e a palavra de ciência já desapareceram. Parece-nos impossível que este texto se referira ao momento do arrebatamento.

Se “o que é perfeito” se referiria mesmo à entrada da igreja arrebatada na Glória, isso significaria que naquele lugar na presença de Deus, ainda teríamos necessidade dos dons da fé e da esperança.

Mas a Bíblia nos explica que nós precisamos da fé enquanto não vemos a Deus (II Cor. 5;7, I Pedro 1;8). Crer significa confiar em Deus que, para nós, é invisível. Uma vez na presença do SENHOR, não teremos mais necessidade da fé. Passaremos do crer para o ver.

A mesma coisa vale para a esperança. Ela é focada exatamente no arrebatamento e na transformação do corpo em semelhança ao de Cristo. Precisamos da esperança enquanto vivemos aqui neste mundo conforme Rom. 8;23-25. Uma vez na Glória, a nossa esperança alcançou a meta e face a face com o Senhor Jesus Cristo não precisaremos mais da esperança. Somente o amor ficará para toda a eternidade.

Frente a este quadro fica bem claro queo que é perfeito” (em grego: to teleion, o que é completo ou concluído) é o estado de maturidade em I Cor. 13;10, que é realizado enquanto a Igreja está aqui na terra. Uma vez que a profecia e a palavra de ciência passaram somente um conhecimento parcial, fica evidente que “o que é perfeito” se refere à revelação e ao pleno conhecimento do conselho de Deus com a Igreja. Em outras palavras, este termo se refere às Escrituras completas do Novo Testamento, cujo conteúdo transmite um detalhado conhecimento de Deus e da missão da Igreja a ser cumprida no mundo.

No começo do tempo apostólico a Igreja possuía poucas escrituras apostólicas. A igreja em Corinto tinha em mãos uma ou duas cartas de Paulo e talvez um dos quatro Evangelhos. Nesta situação precisavam muito dos carismas da profecia e da palavra de ciência, para receber orientação, com respeito à vontade de Deus, lembrando que os apóstolos, em geral, ficavam pouco tempo para dar tantas instruções.

Mas com a conclusão das Escrituras do NT a Igreja possuía a revelação completa dos conselhos de Deus. Com isso tornou-se “maior de idade” e responsável por guardar e pôr em prática esta vontade de Deus revelada, que é a sã doutrina apostólica.

Ao mesmo tempo, as revelações parciais da era apostólica inicial se tornaram supérfluas, junto com os carismas de sinais milagrosos, que os acompanhavam. Deus retirou os dois juntos, deixando assim para a Igreja um fundamento de fé único e bem definido (confira Judas 3: . . . batalhardes diligentemente pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos.” – Versão Almeida Revista e Atualizada).

3) O Dom de Profecia à Luz da Bíblia

Examinaremos agora o carisma da profecia a fundo. Profecia (do grego: proféteia) quer dizer que se fa- lam palavras inspiradas por Deus (veja Jer. 1;9, II Sam. 23;2. Um profeta na Bíblia, tanto no Antigo quanto no Novo Testamento, é um porta-voz escolhido, santificado e revestido de Deus, para transmitir as palavras divinamente inspiradas com fidelidade ao povo de Deus (II Pedro 1;19-21).

O Dom de Profecia na Igreja Primitiva Apostólica

Os crentes das igrejas apostólicas precisavam de conhecimento e certeza do plano de Deus com a Igreja e da vontade dEle nas questões da sua vida particular. Este conhecimento, no início, estava limitado. Os apóstolos e evangelistas que andavam fundando novas igrejas tinham o compromisso de ensinar os novos crentes durante determinado tempo e depois ir adiante, espalhando o Evangelho em outras regiões. As jovens igrejas careciam de mais instrução contínua e nesta altura entrou o recurso da revelação por meio do dom de profecia.

A doutrina apostólica, na forma que a temos hoje nas cartas do NT, não existia no tempo inicial da Igreja. As cartas mais importantes foram escritas somente uns 20 a 25 anos depois do começo do trabalho missionário dos apóstolos entre as nações.

Mesmo no tempo que Paulo redigia a Iª carta aos coríntios, a igreja possuía talvez um dos quatros Evangelhos e, na melhor das hipóteses, duas cartas apostólicas. Mas duas das cartas mais importantes, aos Efésios e aos Colossenses, não existiam ainda.

Para apoiar e complementar o trabalho apostólico, Deus levantou profetas neotestamentários que, ao lado dos apóstolos, tinham dons de revelação, que são a profecia e a palavra de ciência. Sua tarefa era transmitir aos crentes mensagens divinamente inspiradas, passando doutrina, encorajamento e exortação para sua conduta cristã.

As mensagens destes profetas eram chamadas de revelações (em grego: apocalypsis = ato de desvendar, I Cor. 14;30). Como se vê em outros textos bíblicos, isto significa que as mensagens são inspiradas por Deus, contendo a Verdade Divina e são revestidas da autoridade do Senhor, sendo comparáveis aos profetas do Antigo Testamento (AT).

Deus desvenda na profecia o desconhecido, que são os Seus pensamentos, e os coloca na boca do profeta (compare Mat. 11;25, 16;17, João 2;11, 14;21, 17;6, Atos 26;16, Rom. 1;17, 16;26, I Cor. 2;10, II Cor. 12;1, Efésios 1;17, 3;3, 3;5, I Tim.3;16, Tito 1;3, I Pedro 1;12, Apoc. 1;1).

Estas revelações eram inspiradas por Deus e não foram confiadas a qualquer crente. Somente a uns poucos instrumentos escolhidos e santificados do Senhor, aos profetas neotestamentários. Comparável aos profetas do AT, estes do NT recebiam visões, sonhos e mensagens de palavras (veja Números 12;6:  “. . .Se entre vós houver profeta, eu, o Senhor, em visão a ele me farei conhecer, ou em sonhos falarei com ele.” Confira o exemplo de Ágabo em Atos 21;10-11).
Nas igrejas do NT somente homens foram escolhidos para esta tarefa, enquanto que no AT exepcionalmente também houve mulheres, revestidas deste dom. Em todos os textos das cartas apostólicas que mencionam profetas, sempre eram do sexo masculino, tanto quanto os apóstolos o eram (confira I Cor. 12;28-29, 14;29-32, 14;37, Efésios 2;20, 3;5, 4;11, Apoc. 18;20). Em I Cor. 14 se torna óbvio pelo tratamento “irmãos” seguido da proibição de falar para as mulheres.

No livro de Atos aparece o profeta Ágabo (Atos 21;10-11) que recebia revelações divinas, mas no mesmo trecho (no vs. 9) as filhas de Filipe não são chamadas de “profetisas”, embora elas profetizavam no sentido da edificação da fé, o que é previsto também para o sexo feminino, dentro do contexto adequado (veja I Cor. 14;3 e 11;5). Um ministério de “profetisas” nas igrejas estaria em contradição com as regras registradas em I Tim. 2;11-14 e I Cor. 14;34).

Além da profetisa Ana (Lucas 2;36) que servia ainda sob vigência da Lei Mosáica, ou seja, antes da morte e ressurreição de Cristo, encontramos no NT apenas a menção de “profetisa” em Apoc. 2;20, na advertência de não tolerar mais a sedutora Jezabel, que se dizia profetisa. É da maior importância enfatizar esta verdade, uma vez que em todas as correntes enganosas dos tempos finais, inclusive no Pentecostalismo e na ReC, “profetisas” tem um papel destacado.

O Cessar do Carisma da Profecia e a Advertência de se cuidar de falsos Profetas nos Tempos Finais

No estudo cuidadoso do Novo Testamento (NT) encontramos indícios claros de que o carisma da profecia estava limitado ao tempo dos apóstolos:

1) A advertência em Apoc.22;18-19: As palavras de revelação divina encerraram com a conclusão dos livros do NT. O livro de Apocalipse evidentemente é a pedra final das Sagradas Escrituras e com certeza foi escrito também por último.

Neste último livro são retomadas as linhas iniciadas no livro dos começos (Gênesis), ou seja, a criação, o pecado original e a salvação. Aqui, no final da revelação neotestamentária temos uma advertência clara que proíbe qualquer adição de mais “revelações” futuras: “Porque eu testifico a todo aquele que ouvir as palavras da profecia deste livro que, se alguém lhes acrescentar alguma coisa, Deus fará vir sobre ele as pragas que estão escritas neste livro.” (vs. 18).

Com esta mensagem, o Espírito de Deus nos fala com todas as letras que as palavras de revelação divina para a Igreja encerraram com este último livro do NT. Baseado neste fato irrefutável teremos a certeza absoluta que qualquer pessoa que afirma ter novas revelações divinas do Espírito Santo, já está sob juízo de Deus.

2) As Escrituras advertem do Surgimento de falsos Profetas no Tempo pós-apostólico. Caso o dom de profecia fosse dado como fonte de revelação para todo o tempo que a Igreja está na terra, certamente os apóstolos teriam falado reiteradamente a respeito.

Mas isso não acontece, pelo contrário, a responsabilidade dos profetas neotestamentários é descrita em Efésios 2;20 como co-fundadores junto com os apóstolos, que colocaram o fundamento da Igreja, ou seja, as Sagradas Escrituras do NT. Este fundamento foi posto no começo da construção e não precisa ser renovado ou completado outra vez.

Em Atos 20 o apóstolo enfatiza que Deus, futuramente não usará novos apóstolos e profetas para preservar e orientar os fiéis, mas sim, as Sagradas Escrituras somente: Agora, pois, irmãos, encomendo-vos a Deus e à palavra da sua graça; a ele que é poderoso para vos edificar e dar herança entre todos os santificados.” (Atos 20;32).

De forma parecida o apóstolo Pedro aponta para a palavra profética das Sagradas Escrituras como confiável e suficiente na missão de orientar o crente e conduzí-lo até a volta do Senhor (II Pedro 1;19).

A mesma afirmação se encontra em II Tim. 3;13-17: O anúncio de futuras seduções é seguido da recomendação de observar as Sagradas Escrituras como sendo orientação suficiente em todas as situações. Em nenhum lugar aparece a indicação de futuros profetas ou apóstolos para os tempos finais. Se eles estivessem no plano de Deus, certamente ele teria nos avisado a respeito.

3) A Bíblia testemunha que ela é a única Fonte de Revelação para os Crentes em Cristo. Da mesma forma, o apóstolo Pedro aponta para a palavra profética confiável e segura das Sagradas Escrituras como fonte de orientação para os crentes até a volta de Cristo (II Pedro 1;19-21). O mesmo aviso encontra-se em II Tim. 3;13-17: Depois do anúncio da futura sedução por homens maus e enganadores, segue a indicação das Sagradas Escrituras como defesa e orientação suficientes.

Em nenhum lugar das cartas apostólicas encontramos alguma indicação do surgimento de profetas ou apóstolos verdadeiros. Obviamente seria de suma importância ter indicado isso para nós, se fizesse parte do plano de Deus para a Igreja. Com isso, a alegada necessidade de novos dons de profecia, que os grupos pentecostais e carismáticos invocam, cai por terra, frente ás afirmações bíblicas.

4) A Bíblia nos adverte sériamente dos Falsos Profetas nos Tempos Finais. No Novo Testamento há uma advertência várias vezes repetida, dizendo que no tempo final da Igreja, pouco antes da volta de Cristo, surgirão profetas mentirosos que enganarão o Povo de Deus por meio de suas falsas profecias. Em Mat. 24, no seu sermão dos tempos finais, esta exhortação profética insistente é pronunciada pelo nosso Senhor por três vezes (Mat. 24; 4-5, 11-12 e 24-25, comp. Mat. 7; 15-23).

Na primeira epístola de João, o apóstolo nos adverte dos falsos profetas dentro da Igreja: “Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levan- tado no mundo.” (4;1). Em I Tim. 4; 1-2 eles são mencionados indiretamente junto com os falsos mestres e da mesma forma em II Tess. 2; 9-10. Outra advertência direta se encontra em Apoc. 16; 13-14, onde é revelado que Satanás usará as profecias enganosas no auge dos tempos finais de forma maciça.

O Surgimento de falsos Profetas no Tempo Pós-apostólico

A consequência lógica disso é que depois do tempo dos apóstolos cessou o dom de profecia divina. A história da Igreja confirma isso, não conhecendo mais qualquer profeta aceito pelas igrejas como enviado por Deus. Em contrapartida surgiram no séc. II uma porção de profetas comprovadamente falsos.

O mais famoso de todos se chamava Montanus, e se levantou nos anos 160 a 170, dizendo-se profeta enviado por Deus. Algumas fontes dizem que antes ele era sacerdote do culto à Cibele, uma imagem demoníaca. Ele afirmava ser inspirado por Deus, falando nas profecias na 1ª pessoa: “Eu, o Senhor, o Deus Todopoderoso, eu estou presente no homem”.

Montanus também afirmava ser o “paracleto”, o Consolador, o Espírito Santo (conforme João 16;7-14), enviado por Deus. Ele estava sendo assistido por duas “profetisas”, Priscila e Maximila, que abandonaram seus maridos para servirem a Deus, recebendo “revelações divinas” enquanto estavam em estado de transe. Seu movimento, chamado “Nova Profecia” se espalhou rapidamente nas igrejas já enfraquecidas por outras heresias naquele tempo pré-católico, embora os seus líderes o rejeitassem.

As duas profetisas predisseram que Cristo logo desceria do Céu junto com a Jerusalém Celestial e pousaria perto da cidade de Pepuza, na Ásia-Menor. Também previram um grande derramamento do Espírito conforme Joel 3. Além disso, ainda exigiam o celibato, uma vida de privações severas, jejuns extremos e a disposição para o martírio e afirmavam que o perdão dos pecados seria concedido únicamente pelos “profetas”.

Este movimento praticava o falar em línguas, quedas em transe, curas milagrosas, mulheres em posição de liderança. Estes ítens provam a proximidade doutrinária com os grupos carismáticos de hoje. O fato que Cristo não voltou na data profetizada, não mudou nada na prática fervorosa dos adeptos tapeados e espiritualmente cegos. Aos poucos, o movimento enfraqueceu, mas restos do grupo resistiram até o séc. VI.

Falsos profetas também surgiram nos séculos seguintes. Suas caraterísticas por toda parte sempre eram mensagens que discordavam da doutrina bíblica, causando desvio de conduta dos crentes, sedução e destruição espiritual nas igrejas. Muitos agentes do erro eram profetisas, entre elas uma porção de mulheres católicas místicas.

Mas também houve falsos profetas no meio dos evangélicos. Na Alemanha, entre os falsos “batistas” na cidade de Münster, na França, entre os Camisards, cujos profetas chamaram os fiéis a tomarem em armas para se defender da perseguição por parte dos católicos.

Um movimento falsamente profético do séc. 19 que quero apresentar aqui são os “Irvinguianos”, nome derivado do fundador Edward Irving. Ele começou em torno de 1830 na Inglaterra a proclamar, iluminado por visões proféticas, a imediata volta de Cristo, junto com um derramamento do Espírito conforme Joel 3 e a prática do dom de línguas, curas milagrosas, adeptos caindo em transe e mensagens proféticas.

Dirigidos por mensagens proféticas, os líderes escolheram 12 “apóstolos” que ouviram a promessa “divina” que não morreriam, mas assistiriam a volta de Cristo aqui na terra e cuja missão era recolher fiéis no mundo inteiro, formando a igreja escolhida. O movimento se orientava muito pelas heresias dos sacramentos do catolicismo.

O falecimento dos primeiros destes apóstolos antes da volta de Cristo acabou desmascarando o espírito enganoso deste movimento. Mas mesmo assim, muitos adeptos continuavam fiéis ao seu líder. Outra parte se separou, formando a seita “Igreja Neo-Apostólica” que, mais tarde, se dividiu outra vez e muitos se misturaram ao movimento pentecostal e carismático.

O Dom de Profecia falsificado do Pentecostalismo e da ReC

As advertências divinamente inspiradas para os tempos finais que previnem a Igreja de um grande movimento falsamente profético se cumpriram plenamente com o surgimento do Pentecostalismo e da ReC no séc. 20. Embora existiam movimentos parecidos antes deles e hoje paralelamente com os dois, estes últimos são, sem sombra de dúvida, os mais completos e importantes.

Da mesma forma que os sinais milagrosos falsificados revelam diferenças abismais com os sinais divinamente legitimados, também as profecias falsificadas apresentam esta discrepância. Já apontamos uma vez o fato que em tempos bíblicos, uma profecia precisava nascer da inspiração 100% divina e se mostrar verdadeira. Os profetas autorizados por Deus nunca deram previsões mistas, ou seja, uma parte divina e outra parte enganosa. Se os profetas do AT já falavam a Palavra pura de Deus, quanto mais os do NT, que eram nascidos do Espírito Santo!

Mas nas profecias pentecostais e carismáticas existem tantas previsões erradas, que seus mestres passaram a explicar este vexame com a afirmação, que Deus deu aos profetas um “dom” imperfeito que mistura coisas divinas com carnais, onde falam ao mesmo tempo verdades e mentiras.

A Bíblia mostra que os profetas neotestamentários davam exclusivamente mensagens 100% divinas sem mistura com enganos humanos. Os grupos carismáticos, pelo contrário, afirmam que seu dom de profecia é uma mistura de engano humano e verdade divina.

Mas a orientação bíblica é muito clara: Se um profeta diz estar falando em nome do SENHOR, e sua profecia falha, ele se revela comprovadamente como falso profeta que não foi autorizado por Deus, e acabou. Não há uma segunda chance para ele (leia Deut. 18;20-22 com muita atenção).

Se este mesmo padrão fosse aplicado aos profetas dos movimentos carismático e pentecostal, não sobraria ninguém que não fosse demitido. Na prática, porém, quando um profeta famoso dá uma profecia que não se cumpre, os adeptos ouvem a desculpa, que Deus mudou no último momento seu plano, ou, pior, Deus ia cumprir esta profecia, mas muitos dos ouvintes desobedeceram em alguma coisa ou muitos duvidaram da promessa.

Muitos adeptos destes movimentos têm “impressões” ou “palavras sentidas no íntimo do coração” etc. Mas se alguém se levanta dizendo abertamente ser profeta com um chamado divino, este precisa ser medido com o severo padrão bíblico. Os falsos profetas dos tempos finais são também falsos cristãos, ou seja, não experimentaram o novo nascimento e, como pecadores ainda perdidos que são deixam-se usar por Satanás para seduzir a Igreja.

A estes se refere o texto em Mat. 7;15 e 7;22-23:

“Acautelai-vos, porém, dos falsos profetas, que vêm até vós vestidos como ovelhas, mas, interiormente, são lobos devoradores. (…) Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós em teu nome? e em teu nome não expulsamos demônios? e em teu nome não fizemos muitas maravilhas? E então lhes direi abertamente: Nunca vos conheci; apartai-vos de mim, vós que praticais a iniqüidade.”

Igual aos falsos apóstolos, mencionados em II Cor. 11;13-15, estes enganadores são “obreiros fraudulentos” servos do Diabo, que se aproveitam do Pentecostalismo e da Renovação Carismática (ReC) para se disfarçar de anjos de luz com a intenção de seduzir (desviar do caminho) e destruir a verdadeira fé.

Com suas revelações mentirosas apresentam outro Cristo, outro Espírito e outro Evangelho ao povo de Deus. O alvo é a Noiva do Cordeiro, a Igreja-Noiva, que eles pretendem descaraterizar e desviar do caminho. (Conf. II Cor.11;2-3).

Este fundo de ocultismo dos falsos profetas normalmente fica escondido atrás de uma fachada de luz bem brilhosa. Eles se apresentam com uma áurea de santidade superior como servos autorizados por Deus, impressionando o público com sua retórica, seus dons de clarividência e por outros sinais milagrosos, de forma que conseguem esconder seu orgulho, seu egocentrismo, sua ganância e sua fornicação.

Mas, às vezes, o véu é levantado e tudo se torna visível. Foi o caso de Paul Cain, um veterano do Pentecostalismo e da ReC que já aos 18 anos pregava em campanhas de cura divina. Foi ele que anos depois recomendou o falso mestre William Branham como o “maior profeta do séc. 20”.  A partir de 1987 ele apareceu junto com famosos profetas carismáticos (Bill Hamon, Rick Joyner, Bob Jones, Mike Bickle, James Goll, John Paul Jackson) em uma associação chamada “Kansas City Prophets”. Também tinha ligação amigável com o líder John Wimber.

Paul Cain ficou famoso pelas suas profecias certeiras e virou palestrante mundialmente procurado para congressos nos cinco continentes, tendo acesso livre a todas as personalidades do movimento carismático mundial. Mas em 2005 houve uma revelação surpreendente. Seus co-profetas o excluíram da sua associação e ele finalmente confessou que há muitos anos já vivia em relações homossexuais (plural) e dependendo de bebidas alcoólicas.

Qualquer crente instruido na Bíblia Sagrada pode facilmente entender que é totalmente impossível um crente viver conscientemente em pecado e, ao mesmo tempo estar cheio do Espírito Santo, dando profecias de origem divina. Em outras palavras, as profecias de Paul Cain vieram de fontes das trevas, das quais seus co-profetas também se serviram e por muito tempo escondiam a vida devassa do seu colega até que não deu mais para esconder.

O texto de Jeremias 23;32 cai que nem uma luva para os falsos profetas atuais:

“Eis que eu sou contra os que profetizam sonhos mentirosos, diz o Senhor, e os contam, e fazem errar o meu povo com as suas mentiras e com as suas leviandades; pois eu não os enviei, nem lhes dei ordem; e não trouxeram proveito algum a este povo, diz o Senhor.”

 

4) Os Dons de Sinais Milagrosos à Luz da Bíblia

Tanto na doutrina bíblica quanto na prática do Pentecostalismo e da ReC, os sinais milagrosos estão intimamente ligados com a profecia. Os legítimos sinais milagrosos praticados na Igreja Primitiva tinham o objetivo de confirmar as revelações divinas, dadas aos apóstolos e profetas e registradas no NT da Bíblia. Da mesma forma, os falsos sinais milagrosos, praticados no meio carismático, têm o objetivo de confirmar as revelações mentirosas que Satanás espalha nestes tempos finais por meio destes falsos profetas.

Vendo esta situação entendemos a importância de saber o que a Bíblia ensina e qual a diferença entre o original e a falsificação.

O que é um milagre? É um evento que não obedece às leis da natureza que Deus colocou na criação, causado por uma força espiritual que vem do mundo invisível. Em primeiro lugar é o próprio Criador, o SENHOR, que realiza milagres. Mas, dependendo da permissão de Deus, Satanás e seus demônios também podem fazer o mesmo (veja II Tess. 2;9-11 e Apoc. 13;13-14).

Seres humanos não conseguem realizar milagres enquanto dependem dos próprios recursos. Sendo criaturas de Deus, estamos sujeitos às leis da natureza (comp. Gênesis 30;2 e João 9;32-33). Mas se o homem é capacitado por Deus, ele consegue realizar milagres.

A mesma regra vale para o lado das trevas. Pessoas que servem conscientemente a Satanas, tais como feitiçeiros, quiromantes, pais-de-santo, mães-de-santo etc. estão em condições de realizar milagres por meio do demônio que os governa e oprime (confira Êxodo 7;10-11, Deutor. 13;1-3, Atos 8;9-11, Mat. 24;24, II Tess. 2;9, Apoc. 16;13-14 e Apoc.19;20).

O correto é diferenciar entre sinais e milagres, embora, em geral, são mencionados em conjunto. Nem todos os milagres são sinais, mas todos os sinais são milagres. Um sinal é um milagre visível realizado em público, que alcança muitas pessoas (Apoc. 13;13-14), confirmando uma mensagem ao revelar a origem divina dela (compare Êx. 7;9, 10;2, Núm. 14;11, 17;25, I Sam. 2;34, I Reis 13;3, II Reis 20;9, João 2;18).

Deus é o “Deus que faz maravilhas” Sal. 77;14. Nenhum crente de verdade vai afirmar que Deus não faça mais milagres. Mas do ponto de vista bíblico enfatizamos que Deus não realiza sinais, ou seja, milagres visíveis em público, em todas as épocas.

a) Os Sinais Milagrosos no Novo Testamento (NT)

Chama a atenção do leitor do NT o fato de que são relatados tantos milagres do Senhor Jesus nos quatro Evangelhos (João 20;30-31). Outros tantos se encontram no livro de Atos. Para nós é importante entender o sentido deles e o objetivo que Deus tem com isso.

Os Sinais Milagrosos Messiânicos para Israel

Aqui existe uma diferença entre uma dispensação e outra. Os milagres que o Senhor Jesus fez na sua trajetória aqui na Terra, não fazem parte da dispensação da Igreja, mas se dirigem ao povo israelita. Por este motivo têm um caráter muito peculiar.

Deus confirmou a pregação do Seu Filho como Messias por meio de numerosos milagres poderosos e chamativos, incluindo curas de leprosos, cura de cegos desde o nascimento e ressurreições de mortos (Atos 2;22).

Estes sinais milagrosos reforçaram a sua pretenção de ser o Messias, o Salvador enviado por Deus. Eram, portanto, sinais milagrosos messiânicos, cumprindo profecias como aquela em Isaías 35;5-6, relacionados com o Reino Messiânico.

Os doze apóstolos (Mat. 10;1-16) e mais tarde os 70 enviados (Luc.10;1-16) ganharam da parte do Senhor a autoridade de realizar os sinais messiânicos. Estes últimos se restringiam expressamente ao povo israelita e ao tempo da pregação pública do Senhor Jesus. Os sinais transmitiam a seguinte mensagem: “Eis o Messias em vosso meio! O Reino de Deus está próximo!”

“Jesus enviou estes doze, e lhes ordenou, dizendo: Não ireis pelo caminho dos gentios, nem entrareis em cidade de samaritanos; mas ide antes às ovelhas perdidas da casa de Israel; e indo, pregai, dizendo: É chegado o reino dos céus. Curai os enfermos, limpai os leprosos, ressuscitai os mortos, expulsai os demô- nios; de graça recebestes, de graça dai.” Mat. 10;5-8.

Esta missão foi dada únicamente aos discípulos do Messias e cumprida lá. Naquele tempo a Igreja ainda não tinha começado a existir. Os grupos pentecostais e carismáticos que interpretam este texto como sendo a missão dada à Igreja, ignoram claramente o termo “…da casa de Israel”, pronunciado pelo Senhor.

Os Sinais Milagrosos Apostólicos na Igreja Primitiva

O Senhor deu uma promessa e uma missão aos apóstolos da recém-nascida Igreja. Eles e outros instrumentos escolhidos de Deus tinham autoridade de realizar sinais e milagres entre os povos gentios para reforçar a mensagem do Evangelho, pregada por toda parte. Esta missão é registrada em Marcos 16;14-20:

“Finalmente apareceu aos onze, estando eles assentados juntamente, e lançou-lhes em rosto a sua incredulidade e dureza de coração, por não haverem crido nos que o tinham visto já ressuscitado. E disselhes: Ide por todo mundo, pregai o evangelho a toda criatura. Quem crer e for batizado será salvo; mas quem não crer será condenado.

E estes sinais seguirão aos que crerem: Em meu nome expulsarão os demônios; falarão novas línguas; pegarão nas serpentes; e, se beberem alguma coisa mortífera, não lhes fará dano algum; e porão as mãos sobre os enfermos, e os curarão.

Ora, o Senhor, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu, e assentou-se à direita de Deus. E eles, tendo partido, pregaram por todas as partes, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram. Amém.”

Este texto bíblico é um dos mais preferidos no meio pentecostal e carismático. Ele serve de “prova” que, na verdade, todo verdadeiro cristão deveria realizar sinais milagrosos e que a prática pentecostal nada mais é do que a continuação da missão apostólica que Cristo deu à Igreja.

Mas uma leitura atenciosa mostrará que esta interpretação é insustentável. Primeiro perguntamos: O Senhor dirigiu este pronunciamento a quem? Ora, aos onze apóstolos. Eles recebem a missão específica de pregar o Evangelho “a toda criatura” e a promessa que, no ambiente da sua pregação, se realizassem determinados sinais milagrosos.

Todos que se converteriam pela sua pregação experimentariam receber, ou o dom de expulsar demônios, ou de falar em novas línguas, ou de pegar em serpentes, ou de beber veneno, ou de curar enfermos por imposição de mãos. Estes sinais são claramente limitados à primeira geração daqueles que se converteriam pela pregação dos apóstolos.

Se não fosse assim – o que dizer dos milhões de crentes nos séculos pós-apostólicos, que não realizaram mais estes sinais milagrosos? Eram, por acaso, todos falsos crentes? E mesmo os adeptos do Pentecostalismo e da ReC precisam responder a pergunta: Por que a esmagadora maioria de vocês não pega em serpentes venenosas, nem bebe veneno?

O último versículo de Marcos 16 demonstra com clareza este fato: “E eles … pregaram por todas as par- tes, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra com os sinais que se seguiram. Amém.” O texto testemunha, como esta missão específica foi cumprida pelos onze (comp. Col. 1;23) e como o Senhor cumpriu a sua promessa durante a pregação dos apóstolos. O trabalho deles está descrito no pretérito perfeito, ou seja, no passado. Todos os sinais mencionados foram cumpridos no livro de Atos, menos aquele de “se beberem alguma coisa mortífera…”.

É bom lembrar que a Grande Comissão, dada à Igreja (e, além disso, ao remanescente judeu que agirá depois do arrebatamento da Igreja) se encontra outra vez em Mat. 28;18-20, onde o prazo de validade vai “… até a consumação dos séculos” e também em Lucas 24;47 e em Atos 1;8.

A Doutrina dos Sinais Milagrosos nas Cartas Apostólicas

O nosso padrão sempre será a sã doutrina nas cartas apostólicas. Tudo que escrevemos sobre os sinais milagrosos mencionados em Marcos 16 se confirma na carta aos Hebreus, onde o Espírito de Deus nos esclarece outra vez sobre o prazo de validade limitado ao tempo dos apóstolos. Vejamos em Hebreus 2;3-4:

“Como escaparemos nós, se não atentarmos para uma tão grande salvação, a qual, começando a ser anunciada pelo Senhor, foi-nos depois confirmada pelos que a ouviram; testificando também Deus com eles, por sinais, e milagres, e várias maravilhas e dons do Espírito Santo, distribuido por sua vontade?”

Aqui temos a doutrina bíblica sobre sinais milagrosos na Igreja nítidamente descrita:

1) Os legítimos sinais milagrosos de origem divina servem de confirmação para a mensagem do Evangelho.

2) Estes sinais foram dados exclusivamente a Cristo e aos apóstolos – ou seja, aos que O conheciam, O tinham ouvido pessoalmente e foram encarregados por Ele pessoalmente da divulgação do Evangelho. Estas eram as credenciais de um legítimo apóstolo de Cristo (Atos 1;21-22).

3) Em torno do ano 64 DC, na época em que a carta aos Hebreus foi escrita, estes sinais milagrosos já faziam parte do passado.

Em nenhuma das cartas apostólicas do NT encontramos indícios de que Deus quisesse dar o carisma dos sinais milagrosos aos seus servos-pregadores durante toda a dispensação da Igreja. Para os tempos finais existem nas Escrituras exclusivamente advertências contra sinais milagrosos enganosos, como veremos mais adiante. Achamos a confirmação disso no fato que Paulo escreveu dos “sinais apostólicos” que ele tinha realizado e que o credenciavam como um legítimo apóstolo de Cristo em II Cor. 12;12: “Os sinais do meu apostolado foram manifestados entre vós com toda a paciência, por sinais, prodígios e maravilhas.” Confira Rom. 15;19 e Atos 19;11-12.

Além disso, havia alguns outros servos de Cristo que, pelo mesmo carisma, realizavam os mesmos sinais milagrosos, como Felipe e Estêvão (I Cor. 12;10). Uma argumentação freqüentemente alegada é que o próprio Cristo tinha prometido aos que cressem nEle, que fariam as mesmas obras que Ele, e até “obras maiores” fariam (João 14;12). Mas as “obras maiores” que o Senhor menciona não podem significar “sinais maiores”. Quem faria um sinal maior do que a ressurreição de um morto?

Obras maiores pode significar que Deus nos usará para levar um pecador a Cristo e assisti-lo na experiência do novo nascimento, o que somente foi possível depois da ascenção do Senhor aos Céus. Este privilégio Jesus não tinha durante Sua vida na Terra.

b) O Cessar dos Sinais Milagrosos Legítimos
e os Sinais Enganosos dos Últimos Tempos

Vimos anteriormente que a Bíblia testemunha o cessar dos sinais milagrosos legítimos já no final dos tempos apostólicos e, paralelamente adverte com insistência dos sinais milagrosos de engano, que seriam usados por Satanás em grande escala nos tempos finais, antes da volta de Cristo, para seduzir os crentes a andarem no caminho errado, sofrendo danos irreparáveis na sua vida espiritual.

Os Sinais Divinos cessaram

Conforme o testemunho das Sagradas Escrituras não podemos mais contar com legítimos sinais mila- grosos hoje em dia. Com isso não negamos que Deus faça milagres em nossos dias! Deus é o Deus que faz milagres (Salmo 77;14).

Muitos crentes fiéis e firmes na doutrina apostólica podem testemunhar tais fatos, inclusive a cura divina como resposta a uma oração de fé. Mas estes milagres não acontecem mais como sinais públicos e confirmação divina da pregação do Evangelho, como era na época dos apóstolos. Eles acontecem mais em ambientes particulares, sempre longe dos holofotes e de acordo com a vontade soberana de Deus.

Quando Pedro e João curaram o paralítico na “Porta Formosa” do templo em Jerusalém, se tratava de um milagre de grande repercussão pública, que chamou a atenção de grandes multidões (veja Atos 3). Ao contrário que, se hoje uma pessoa enferma é curada como resposta à oração de um grupo de crentes, somente os familiares e parentes mais próximos ficam sabendo.

Deus faz milagres hoje, mas sempre em ambientes particulares. Em certas regiões do Terceiro Mundo que ficaram privados por séculos da pregação do Evangelho, tais milagres ainda podem ter uma repercussão maior, mas isso não se compara ao caráter público dos milagres nos tempos apostólicos.

Os verdadeiros milagres de cura divina, hoje em dia, acontecem na base de Tiago 5;14-16, que é a regra divina a ser seguida pela Igreja, ou seja, a oração dos presbíteros, antecedido pela confissão de pecado do enfermo ou orações dos crentes presentes uns pelos outros (note bem que o texto não menciona a imposição de mãos).

O carisma das curas milagrosas por imposição de mãos foi retirado por Deus depois dos tempos apostólicos. Aquele dom que se pratica hoje em grupos pentecostais e carismáticos não passa de uma falsificação das trevas.

A Advertência de Sinais Enganosos nos Tempos Finais nas Escrituras

A primeira advertência de sinais enganosos se encontra no sermão apocalíptico do Senhor Jesus Cristo, onde é dito que tais sinais enganosos são um perigo e uma tentação para os verdadeiros crentes. Vejamos em Mat. 24;24:

“Porque surgirão falsos cristos e falsos profetas, e farão tão grandes sinais e prodígios que, se possível fora, enganariam até os escolhidos.”

O Senhor enfatiza que, aos olhos da grande massa, os milagres serão considerados grandiosos e sensacionais. Em Mat. 7;22 encontramos sinais milagrosos em ligação com falsos profetas. Eles se gloriam de terem realizado muitos milagres.

No livro de Atos há duas advertências sobre como o inimigo pode usar milagreiros e personalidades reli- giosas de carisma fascinante para resistir ao Evangelho e afastar pessoas da decisão de receber a Cristo como Senhor e Salvador.

O primeiro é Simão, o Mago, judeu, que exercia grande influência entre o povo samaritano (Atos 8;9-11). Coisas parecidas são mencionadas de um “profeta”, Bar-Jesus, que aparece em Atos 13;6-10 (comp. II Tim. 3;6-8).

As grandes advertências dos sinais enganosos nas cartas apostólicas se encontram em II Tess. 2, onde aparecem em relação ao surgimento do anticristo, o qual se servirá destes em grande escala, para enganar e seduzir as multidões. Vs. 9-10:

“A esse cuja vinda é segundo a eficácia de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira, e com todo o engano da injustiça para os que perecem, porque não receberam o amor da verdade para se salvarem.”

Aqui são usados os mesmos termos que se encontram em Hebr. 2;4 (em grego: dynameis, semeioi, terata), onde descrevem os sinais milagrosos divinos. Satanás imita nos tempos finais, o que Deus fez no tempo apostólico e consegue “vender” o produto falsificado como “grande despertamento espiritual”!

Neste texto bíblico citado somos informados que o surgimento dos sinais enganosos representa o juízo de Deus sobre a parte da humanidade que rejeitou a pregação da Verdade Divina (veja II Tim. 4;3-4).

A terceira e última advertência contra os sinais enganosos está no livro de Apocalipse. Da mesma maneira que em II Tess. 2, o texto nos conduz ao tempo do anticristo (Apoc. 13;11-14).

Mas a descrição do clímax da sedução por meio de sinais enganosos em Apoc. 13 não significa que antes disso não haja perigo. Ainda mais que já estamos vivendo nos tempos finais hoje. Em Mat. 24;8 temos a informação que os sintomas dos tempos finais aparecem como dores de parto de mulher, ou seja, em “ondas” que começam “fracas”, mas se repetem aumentando cada vez mais em intensidade.

Vemos aqui a urgência de contar com a atividade crescente de milagreiros enganadores e falsos profetas que são usados pelos espíritos das trevas em forma de anjos da luz. Não nos surpreendamos com eles. Felizes os crentes que se mantêm sóbrios, sabendo que todas essas manifestações não vêm de Deus, porque os sinais milagrosos não fazem parte do plano de Deus para os tempos finais.

Note bem: Todo profeta e todo milagreiro que hoje se apresenta com a pretensão de ter novas revelações de Deus, realizando sinais milagrosos aparentemente vindos de Deus, é um enganador, um embusteiro e mentiroso. Não aceitemos o testemunho de tal pessoa de maneira alguma! É preciso rejeitá-lo com firmeza.

Sinais Enganosos na História da Igreja

A história da Igreja mostra que de fato os sinais milagrosos de origem divina já cessaram no final do tempo apostólico. Os primeiros autores da Igreja Primitiva demostram isso, por exemplo, nas escrituras de Crisóstomo do séc. IV: “Não façam conclusões erradas. Se hoje não acontecem mais milagres, isso não quer dizer que não aconteciam naquele tempo (dos apóstolos). Mas lá eram úteis e hoje não são. Dos poderes milagrosos deles não sobrou nem rastro algum”.

Com a descaraterização da Igreja para a Religião Católica surgiram cada vez mais testemunhos de falsos milagres e sinais sobrenaturais em relação a relíquias de santos e a hóstia. Séculos mais tarde já fazia parte da tradição que santos católicos ou suas imagens precisavam ter realizado milagres para serem legítimados. Uma parte deles pertence ao universo das lendas, mas outra grande parte são sinais sobrenaturais enganosos, realizados pelo poder das trevas.

Relacionadas a estes sinais enganosos surgiram na história da Igreja seguidas vezes visões e revelações concedidas a místicos e santos duvidosos, que influenciaram vários papas e lideranças eclesiásticas.

Muitas vezes nem se apresentava um falso Cristo, mas sim, uma “Maria”, a “Rainha do Céu” babilônica. Os milagres e profecias de Lourdes e de Fátima são famosos até hoje. O já falecido líder John Wimber confirmou no seu tempo, que aqueles tinham sido milagres de origem divina. Outros líderes carismáticos disseram a mesma coisa. Mas qualquer crente sóbrio entende com facilidade que aqueles milagres eram sinais enganosos de origem demoníaca.

Já mencionamos anteriormente o movimento dos Montanistas, dos Inspirados e do Movimento Católico Apostólico. Mais outras numerosas seitas anunciam a prática de sinais milagrosos, tais como a “Ciência Cristã”, os grupos da Nova Era, Gurús hindús com suas multidões de adeptos e, não por último, as religiões afro-brasileiras.

Porém, no âmbito cristão a partir do séc. 20, nada supera os grupos pentecostais e carismáticos, que ocupam hoje uma posição-chave nesta área.

c) Os Falsos Sinais Milagrosos do Pentecostalismo
e da ReC (Renovação Carismática)

Conforme a auto-definição dos grupos pentecostais e carismáticos, os sinais milagrosos são a prova definitiva da autenticidade do derramamento do Espírito Santo e da restauração da Igreja Apostólica. Falsos sinais acompanhavam este movimento desde o princípio, e as curas milagrosas estavam sempre em destaque.

Outras manifestações sobrenaturais também ganharam notoriedade, tais como obturações dentárias de ouro (materialização), auréolas aparecendo em torno da cabeça de milagreiros, levitações de pessoas (pairar no ar) e vários outros. Estes mesmos milagres acontecem da mesma forma em círculos espíritas e na magia negra. Mas voltando as curas “divinas” observamos diferenças notáveis entre estes e as curas divinas do tempo apostólico.

O Sinal Milagroso da Cura Divina e a Falsificação Carismática

Os milagreiros carismáticos tentam dar às suas curas a aparência de uma origem divina, afirmando que estão praticando o carisma neotestamentário da cura. Quando impõe as mãos nos enfermos ou mandam pelo correio “lenços benzidos” ou falam aos doentes: “Em nome de Jesus, seja curado!” ou expulsam demônios de enfermidade, sempre se referem ao exemplo dos apóstolos e confirmam a pretenção de agirem de acordo com o poder divino que agia no tempo apostólico.

Quem está firmado nas Sagradas Escrituras percebe que esta pretenção é enganosa, porque o carisma dos sinais milagrosos foi dado somente no começo para confirmar a revelação das Escrituras. Mas mesmo as próprias práticas dos milagreiros revelam a grande diferença entre os verdadeiros milagres divinos e as falsificações diabólicas:

1) As curas que o SENHOR e seus apóstolos realizaram, aconteciam imediatamente, eram inconfundíveis e completas, indubitável para as testemunhas presentes. Todos que procuravam foram curados, mesmo doentes graves ou em fase terminal.
Bem ao contrário disso, as curas enganosas dos agentes carismáticos famosos são caraterizados pelo fato que a maioria que as procura nunca é curada. Muitas curas são passageiras ou temporárias e pouco depois do evento, os sintomas da doença voltam com toda força.

Muitas vezes foi observado em grandes eventos de “cura divina” que pessoas levantaram da cadeira de rodas, pulando de alegria, cantando e dançando, aparentemente curadas, mas no final do evento, estas mesmas pessoas deixaram o salão já de novo sentadas na cadeira de rodas.

Nos EUA, vários curandeiros evangélicos, como Kathryn Kuhlman e Benny Hinn entre outros, foram procurados com o pedido de apontar alguns exemplos de pessoas definitivamente curadas, com um atestado médico que confirmasse a doença antes diagnosticada no corpo, mas agora inexistente, ou curada “inexplicavelmente”. Nenhuma das assessorias destes grandes nomes conseguia fornecer exemplo algum.

“Curas definitivas” que são apontadas como prova, são sempre aquelas de males gerais, no ambiente psicossomático, ou seja, dores nas costas, dores de cabeça, dores nas juntas etc., coisas de difícil diagnóstico médico. Raras vezes acontecem curas de verdade que, por sua parte, são realizados pelo poder das trevas, o que representa a pior das hipóteses, porque tem consequências negativas pelo resto da vida.

Não esqueçam que nos centros espíritas Brasil afora, diariamente acontecem milhares de curas definitivas que são confirmadas por atestado médico, ou seja, sem truques, mas realizados pelos espíritos demoníacos, que depois passam a atormentar aquelas pessoas curadas pelo resto das suas vidas.

2) As curas milagrosas carismáticas acontecem hoje em dia dentro de um quadro cuidadosamente organizado que se baseia geralmente em técnicas de hipnose de massas. Por meio de estilos de música adequados, “louvores” sugestivos, palavras de ordem ensaiadas, e pregações emocionais e sugestivas o público é levado a uma sensação forte de união de grupo, que são as condições necessárias para que “a força” possa cair ou começar a agir.

Várias manifestações desta “força” como o cair para trás, risadas histéricas e gritos selvagens ou distorção de membros descontrolados ou cair em transe contradizem frontalmente o testemunho e a ação do Espírito Santo. Desta forma os sinais mencionados confirmam a origem demoníaca de tais curas.

3) As curas milagrosas dos apóstolos de Cristo seguiam o princípio de Mat. 10;8: “De graça recebeste, de graça dai.” Enquanto que as reuniões de “cura divina” dos curandeiros evangélicos são caraterizados pela insistência constrangedora de recolher ofertas a todo instante. Este fato revela a origem espiritual deles: “Porque o amor ao dinheiro é a raíz de toda a espécie de males.” (I Tim. 6;10, leia também V. 5 e II Pedro 2;3).

Por meio de falsas curas milagrosas, crentes novos e ainda pouco firmados são atraídos ao movimento carismático onde ficam sob a influência do espírito enganador que os perturba depois pelas manifestações espíritas assustadoras, impedindo o crescimento na fé e o desenvolvimento saudável de uma vida cristã.

5) Agarrar-se à Palavra Confiável de Deus

Para resolver a questão, se Deus ainda hoje fala por meio de profetas e sinais milagrosos, é preciso entender os caminhos de Deus de maneira ampla e profunda.

Muitos crentes entendem emocionalmente a doutrina do cessar das revelações divinas e dos sinais milagrosos como um roubo. Eles desejam que as manifestações visíveis da glória de Deus continuem, sonhando de despertamentos poderosos que abrangem os continentes e que façam voltar o tempo dos apóstolos de Cristo. Alimenta-se o sonho de uma Igreja poderosa e gloriosa que domina o cenário mundial, sendo o centro de admiração da humanidade.

Mas ao estudarmos a doutrina bíblica sobre os tempos finais da dispensação da graça, descobriremos que a Palavra de Deus não profetiza nenhum despertamento em massa, e sim, uma apostasia em massa, um acelerado crescimento de injustiça e anarquia, de práticas ocultistas e enganação anticristã.

A própria Igreja sofrerá investidas destas tendências, que é o motivo da Bíblia chamar estes tempos finais de “tempos difíceis” para todos os verdadeiros crentes (II Tim. 3;1). São tempos de decadência e de sedução, tempos de juízo divino na Casa de Deus, onde os verdadeiros crentes representam uma minoria desprezada, debochada e perseguida.

Neste último tempo Deus não se revela por meio de novos apóstolos e profetas, nem por sinais milagrosos sensacionalistas e nem por derramamentos de Espírito chamativos. O Espírito Santo foi derramado sobre a Igreja uma vez por todas no dia de Pentecostes em Jerusalém e desde então fica com ela até a volta de Cristo em grande poder e glória.

Por outro lado, neste tempo do fim, o Espírito de Deus muitas vezes é entristecido e a sua ação apagada pela vida carnal do crente, pela desobediência à Bíblia e pela assimilação do mundo. O pequeno remanescente dos crentes fiéis, que Deus guarda no tempo do fim, é caraterizado pela pequena força, pela fidelidade à Bíblia e pelo fato que eles não negam o Seu Nome (Apoc. 3;8).

Vivemos em um tempo, em que a grande massa dos crentes vive um cristianismo meramente emocional, se afastando da Bíblia e seguindo a falsos mestres, que na verdade nada menos são do que os ministros do anticristo. Em consequência disso, a característica mais importante de um verdadeiro crente hoje em dia é que ele se agarre firmemente à Palavra confiável de Deus (veja II Tim. 1;13-14, 2;15, 3;14-17, 4;1-2 e Tito 1;9).

A “ferramenta” da Graça Divina, que foi dada à Igreja para poder passar vitoriosamente por todas as provações e lutas do tempo final é a Bíblia, a Palavra divinamente inspirada e infalível. O desafio principal é apoiar-se neste fundamento seguro incondicionalmente sem permitir que falsos profetas façam adições à Bíblia ou falsos mestres ou teólogos críticos semeiem desconfiança em nosso coração, roubando-nos o maior tesouro.

Outro desafio importante é pôr a Palavra de Deus em prática no dia-a-dia, em nossas igrejas, honrando a Deus pela obediência. E finalmente temos o desafio de pregar nestes dias difíceis a mensagem da Salvação, o Evangelho, no poder do Espírito Santo, para que haja oportunidade e mais alguns sejam salvos antes que encerre o tempo da Graça e venha o Juízo da Ira Divina sobre a humanidade.

“Conjuro-te, pois, diante de Deus, e do Senhor Jesus Cristo, que há de julgar os vivos e os mortos, na sua vinda e no seu reino, que pregues a Palavra, instes a tempo e fora de tempo, redarguas, repreendas, exortes, com toda a longanimidade e doutrina.Porque virá tempo em que não suportarão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências; e desviarão os ouvidos da verdade, voltando às fábulas. Mas tu, sê sóbrio em tudo, sofre as aflições, faze a obra de um evangelista, cumpre o teu ministério.” II Tim. 4;1-5

 

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